Planeta Educação

Cinema na Educação

João Luís de Almeida Machado Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

A Caminho de Kandahar
A tragédia das mulheres e dos mutilados do Afeganistão

Duas-mulheres-com-rostos-cobertos-do-Afeganistão

O soar do sino anuncia o início de uma aula sobre o Corão.

"O que é um sabre?" pergunta o professor aos seus alunos do Corão. "Um sabre é uma arma que executa as ordens de Deus. Uma arma de Deus que corta as mãos do ladrão e a cabeça do assassino", responde o jovem pupilo.

"O que é um Kalashnikov?", pergunta o professor a outro aluno. "Kalashnikov é uma arma semi-automática que mata os vivos e destroça a carne daqueles que já morreram", responde esse outro aprendiz.

De acordo com Amartya Sen, economista indiano, ganhador do prêmio Nobel, “pode-se afirmar que uma compreensão adequada de quais são as necessidades econômicas – seu conteúdo e sua força – requer discussão e diálogo”. Como dialogar com Kalashnikovs? De que forma discutir diante da força dos sabres?

Amartya continua suas reflexões sobre a questão das liberdades plurais como fundamentos para que se estabeleça uma melhor condição de vida numa sociedade afirmando que “os direitos políticos e civis, especialmente os relacionados à garantia da discussão, debate, crítica e dissensão abertos, são centrais para os processos de geração de escolhas bem fundamentadas e refletidas”. De que forma implementar isso em países que adotam políticas fundamentalistas radicais como foi o caso do Afeganistão controlado pelos Talibãs, onde as mulheres vivem à margem da sociedade, praticamente excluídas, como autênticas párias?

No Afeganistão dos Talibãs as meninas nem podiam estudar. O governo radicalizou a situação de desprezo social e isolamento das mulheres desde a infância. Dessa forma as transformou em párias permanentes dentro dos limites de sua própria pátria e perante toda a comunidade masculina. Não lhes era permitido nem mesmo andar na frente ou ao lado de seus maridos. Suas vidas destinavam-se apenas ao espaço doméstico, a cuidar da casa, a criar os filhos e a procriar...

Homens-do-Afeganistão-de-muletas

A protagonista desse envolvente e intrigante filme iraniano de Mohsen Makhmalbaf expressa suas dúvidas quanto à obrigatoriedade do uso das burcas ser apenas uma imposição do governo do Talibã ou se esses mesmos governantes são, na realidade, levados a agir dessa forma por conta das tradições culturais arcaicas do país e de seu fanatismo em relação às mesmas. Importa-nos lembrar que o uso dessa peça de vestuário característica do mundo islâmico tornou-se entre os afegãos num forte símbolo da opressão sofrida pelas mulheres.

Ao longo do filme somos informados que as comunidades do Afeganistão são identificadas a partir de suas origens étnicas, culturais e/ou geográficas, mas as mulheres do país, equivalentes a metade do total de habitantes daquela nação, são desconsideradas socialmente a ponto de serem excluídas dessa identificação étnica, geográfica e/ou cultural e são pejorativamente chamadas de "Seaser" ou “Cabeças Negras” pelo fato de ocultarem-se quase que completamente debaixo das burcas.

Se não bastasse a discriminação sofrida pelas mulheres, durante vinte anos de sua história recente, mais especificamente nas duas últimas décadas do século XX, os registros dos órgãos internacionais dão conta de que uma pessoa teria morrido a cada cinco minutos, em média, no Afeganistão. A guerra contra os invasores russos, as disputas políticas e sociais internas e a ascensão dos radicais do talibã nos ajudam a compreender um pouco da tragédia humana daquela frágil e pobre nação asiática. A história do país, de tão devastadoras conseqüências nesse passado tão recente, ainda legou ao castigado povo local o drama das minas terrestres espalhadas pelos quatro cantos do país que a todo o momento geram novas vítimas fatais ou mutiladas que choram por próteses que os ajudem a andar...

Apesar disso os funcionários da ONU que atuam no país, também representados no filme, procuram manter acesa a chama da esperança do povo que ali vive. "Os muros erguidos contra essas pessoas podem ser altos", diz um deles a Nafas (a personagem principal do filme) e a algumas meninas que estão trilhando o caminho de volta para o Afeganistão, "mas o céu é muito mais elevado", complementa ele. Mas como alimentar qualquer sonho ou expectativa de dias melhores quando os dados da realidade do país são tão aterradores?

"Se soubesse disso (que uma pessoa morreu a cada 5 minutos nos últimos 20 anos no Afeganistão), teria perdido a esperança a cada 5 minutos", diz a jornalista que tenta adentrar as terras de sua pátria para salvar a irmã.

O Filme

Homem-e-mulher-do-afeganistão

A vida das mulheres se deteriorou no Afeganistão com a chegada ao poder do Talibã. A elas foi proibido estudar e ter qualquer tipo de vida social. Isso está transtornando a vida da irmã de Nafas (Niloufar Pazira) a ponto de fazê-la optar pela morte a viver reclusa e amaldiçoada pelo regime político que agora impera em seu país. E essa morte tem data marcada para acontecer, mais especificamente no dia do último eclipse do século XX...

Nafas decide então a deixar a cômoda e segura situação em que vive, como refugiada política no Canadá, para retornar ao Afeganistão para tentar demover sua irmã de sua idéia e tirá-la do país rumo a uma vida melhor na América. Nafas é uma jornalista que escreve matérias sobre a difícil e triste condição de vida das mulheres do mundo árabe, oprimidas sob o manto pesado e quente das burcas em que escondem seus rostos, corpos e identidades.

Depois de um período de mais de 25 dias tentando entrar no Afeganistão pelas fronteiras daquele país, Nafas tenta chegar a Kandahar tendo apenas 3 dias antes do eclipse acontecer. Para isso conta com o apoio de um helicóptero da Cruz Vermelha internacional.

A primeira e aterradora visão do helicóptero em que está Nafas é um pequeno acampamento onde algumas pessoas deficientes, apoiadas em muletas por não possuírem uma das pernas, movem-se com dificuldade em direção a aeronave a esperar da mesma algum remédio para atenuar sua dor e sofrimento.

Para entrar novamente no Afeganistão, Nafas finge fazer parte de uma das famílias que está retornando ao país acompanhada de um séqüito de crianças. As garotas são alertadas quanto aos riscos que irão correr em sua jornada de volta (como as minas terrestres espalhadas na rota de retorno) e também são informadas das restrições que terão em suas vidas.

No caminho para Kandahar, figurando como uma das esposas de um dos migrantes, perambulando pelo deserto num pequeno veículo ao lado das crianças e esposas de seu falso marido, Nafas vai aos poucos percebendo hábitos do cotidiano empobrecido culturalmente das mulheres do Afeganistão.

A saga de protagonista para tentar salva a vida de sua irmã é apenas um mote secundário, como vamos percebendo ao longo do longa-metragem, para que possamos adentrar as áridas e pedregosas terras do Afeganistão em busca do necessário entendimento da dura realidade da vida dos habitantes daquele país e para que, principalmente, nos sensibilizemos com a dor, sofrimento e abandono que levam milhares de pessoas a viver abaixo da linha daquilo que consideramos como minimamente digno e humano...


Para Refletir

Família-do-Afeganistão

1- O respeito às diferenças étnicas e culturais entre os países das diferentes regiões do globo é de fundamental importância para que possamos superar a realidade de guerras e atentados que legam tantas vítimas fatais e pessoas mutiladas mundo afora. Apesar disso, não podemos deixar de pensar na penosa situação vivida pelas mulheres em países que adotam as linhas mais radicais, tradicionalistas e ortodoxas do islamismo e que, ao assim fazer, condenam sua população feminina ao ostracismo. Seria interessante promover pesquisas e projetos entre os estudantes no sentido de direcionar os seus olhares para as diferenças culturais existentes entre os países do mundo árabe. Esses trabalhos teriam a finalidade de demonstrar que há diferentes comportamentos de uma localidade para a outra e que, entre os países muçulmanos, muitos deles permitem que a mulher tenha maior participação social (podendo estudar, trabalhar, mostrar seus rostos, praticar esportes,...) sem que se ofendam costumes e tradições da religião de Maomé.

2- Levantamentos mundiais apontam a Ásia e a África como os continentes em que há a maior quantidade de minas terrestres inadvertidamente espalhadas nas terras de vários países. São, no caso, bombas remanescentes de guerras que terminaram ou que ainda continuam acontecendo. Em ambos os casos, verifica-se um imenso prejuízo para as populações civis, afetando desde as crianças até os idosos ao privá-los de seus membros, de suas vidas ou ainda colocando-os na situação de mutilados dependentes de seus familiares em nações que se aproximam muito pelo fato de serem extremamente pobres. O que são as minas terrestres? Para que servem? Como poderiam ser desativadas? Há ações nesse sentido? O que as organizações humanitárias e a ONU tem feito em relação a esse grande drama vivido na África e na Ásia? Um bom tema para trabalhar conjuntamente os esforços nas áreas da geografia, química, física, história...

3- Regiões desérticas, que apresentam poucas possibilidades para o estabelecimento da vida humana, massacradas pela virulência de regimes políticos tirânicos, esquecidas pela humanidade e desprezadas pelo sistema sócio-econômico que rege o planeta em que vivemos a não ser que tenham petróleo ou qualquer outra riqueza mineral em seu subsolo. Como sobrevivem esses países? Quais são seus hábitos? E suas cidades, como se estruturam? Perguntas como essas devem rondar a nossa cabeça quando vemos filmes como “A Caminho de Kandahar”, que nos coloca no meio de um país de maioria muçulmana, estabelecido no continente asiático e que tem sido castigado pelas pragas ali plantadas pela humanidade ao longo de sua história mais recente. Aproveitemos essas dúvidas para promover buscas na Internet, entrevistas com representantes diplomáticos ou refugiados políticos, pesquisas em jornais e revistas, reprodução de mapas e imagens,...

4- A título comparativo e buscando uma melhor compreensão da cultura do mundo árabe e da situação da mulher naquelas paragens, assista juntamente com seus alunos alguns outros filmes que trabalham essa temática. Boas sugestões são “Nunca sem minha filha” e “Osama”.

Ficha Técnica

A Caminho de Kandahar
(Safar É Gandehar)

País/Ano de produção: Irã, 2001
Duração/Gênero: 85 min., Drama
Direção de Mohsen Makhmalbaf
Roteiro de Mohsen Makhmalbaf
Elenco: Niloufar Pazira, Hassan Tantai, Sadou Teymouri.

Links

http://www.adorocinema.com.br/filmes/a-caminho-de-kandahar/a-caminho-de-kandahar.asp

http://www.webcine.com.br/filmessi/camkanda.htm

 http://www.cinemaemcena.com.br/Critica_Detalhe.aspx?id_critica=1113&id_tipo_critica=1

Avaliação deste Artigo: 4 estrelas