Planeta Educação

A Semana - Editorial

João Luís de Almeida Machado Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

Para melhorar a educação no Brasil
As soluções podem ser as mais simples...

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Pense bem antes de votar!

Estamos às vésperas de mais uma eleição importante. Escolheremos o futuro presidente, os governadores dos estados, os senadores, os novos deputados federais e também os estaduais. A despeito da comicidade das campanhas eleitorais temos diante de nós uma grande responsabilidade. Os próximos quatro anos do Brasil estão em nossas mãos.

Entre os temas mais discutidos nas últimas semanas (saúde, segurança, saneamento básico, investimentos em infra-estrutura, transportes,...) está a educação. A princípio, pela fala de todos os candidatos, trata-se de uma questão prioritária em seus planos e projetos de governo. Como melhorar a educação no Brasil? Por que investir nas escolas? De que forma o nosso país pode crescer tendo como suporte sua educação?

Perguntas como essas estão na cabeça e na boca de muitas pessoas envolvidas com o segmento e, principalmente, nos discursos dos candidatos. É imprescindível nesse momento que procuremos saber exatamente o que cada um deles está projetando para o setor educacional. Iremos colher aquilo que plantamos. Se não nos ocuparmos, com os devidos cuidados, de atentar para os projetos em todas as áreas, e em particular no que se refere à educação, estaremos comprometendo o amanhã de nossas futuras gerações...

Mas do que precisamos realmente? Há fórmulas mágicas que possam surgir da cartola de algum dos candidatos para tornar a educação no Brasil tão qualificada quanto nos centros mais desenvolvidos? Não há receitas prontas para nenhum dos problemas. Programas milagrosos propagandeados por qualquer candidato devem sempre ser percebidos como algo perigoso, enganoso e prejudicial.

Pensemos, então, uma a uma, algumas das situações mais críticas e discutidas da educação brasileira. Iniciemos com a questão mais ampla de todas, ou seja, a qualidade da educação. O que significa ter qualidade em educação? Devemos nos convencer inicialmente que a melhores soluções são, indubitavelmente, as mais simples.

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Salas de aula amplas, bem iluminadas, arejadas e pintadas,
com carteiras e equipamentos em boa condição e em quantidade
suficiente para todos os estudantes é serviço de qualidade que
aumenta a disposição e melhora o rendimento de todos
os envolvidos em educação.

As primeiras lacunas a serem preenchidas referem-se à questão do ambiente e dos recursos materiais e humanos. As escolas têm que ter salas que comportem a quantidade de alunos prevista sem que se criem situações embaraçosas por falta de carteiras, espaço ou de um mínimo de conforto. A regulamentação da educação no Brasil deveria estipular um número máximo de alunos por sala (calculado em trinta crianças ou adolescentes como maior quantidade), conforme pensam muitos educadores (entre os quais me incluo).

Os móveis e instalações devem estar, obrigatoriamente, em boas condições. Isso significa que anualmente as escolas públicas municipais, estaduais ou federais, em qualquer nível (educação infantil, ensino fundamental, ensino médio ou ensino superior) deveriam ser pintadas e ter suas mobílias reformadas ou substituídas quando necessário. Pode parecer banalidade, mas não é. Para quem entra na sala de aula isso significa uma preocupação por parte dos governantes com sua qualidade de vida...

E, como sabemos, boa qualidade de vida gera contentamento e satisfação que redundam em maior comprometimento e disposição para o trabalho. Isso serve para professores, funcionários e também estudantes...

Ainda no que se refere ao aparelhamento das escolas, é de indispensável necessidade que os gastos com bibliotecas, laboratórios de ciências e salas de informática sejam pensados enquanto projetos perenes e não temporários ou eleitoreiros. A aquisição de novos livros, kits de ciência e computadores com acesso a internet devem ser prioridades quanto aos investimentos e gastos em educação.

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Bibliotecas escolares bem organizadas, atualizadas e freqüentadas
a partir do estímulo a leitura a partir das aulas e projetos.
Parece sonho? Não deveria ser...

Os três segmentos devem ser trabalhados com seriedade. Digo isso porque a febre da informática transformou os computadores nas grandes estrelas dos projetos de renovação e atualização das escolas. Não nego essa necessidade e considero de grande importância que possamos nos mobilizar para uma grande inclusão digital em nosso país nos próximos anos.

No entanto, considero uma afronta nos preocuparmos tanto com computadores quando muitas crianças não conseguiram aprender a ler, escrever, fazer cálculos simples ou ter noções de ciências e estudos sociais que lhes permitam acesso pleno a cidadania, a ética e a dignidade humana.

Por isso as bibliotecas atualizadas, apoiadas por projetos de leitura que realmente estimulem e criem o gosto pelas letras é acessório importantíssimo para as escolas. Também as salas de ciências, bancadas por visitas freqüentes, programadas nos planejamentos e executadas regularmente desde as séries iniciais do ensino fundamental são de vital necessidade.

Monteiro Lobato já dizia que “um país se faz com homens e livros”. Países prósperos, que têm a intenção de atingir estágios de maior justiça social e independência econômica demandam, além dos livros, investimentos em ciência e tecnologia. Se não temos uma cultura nacional estabelecida desde os primórdios da educação nesse sentido, como poderemos nos tornar produtores de tecnologia e conhecimento?

Salas arejadas, bem iluminadas, pintadas e limpas. Carteiras em quantidade suficiente para abrigar todos os alunos previstos (no máximo 30 estudantes em cada classe). Em cada escola uma biblioteca equipada com livros atualizadas ano a ano e muito utilizadas pelos alunos em virtude de projetos de leitura.
Laboratórios de ciências equipados e visitados semanalmente por diferentes turmas a partir de planos de ensino e orientações dos professores. Salas de computadores com máquinas em bom estado funcional e plugadas na Internet para o contato com o mundo para entender melhor as disciplinas escolares. Isso já seria suficiente?

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Laboratórios de ciência são necessários para criar uma cultura que
preze e estimule a pesquisa. Para que qualquer país prospere os
investimentos na área devem começar desde a mais tenra
idade, ainda no ensino fundamental.

Não, ainda faltam mudanças primordiais em outros setores críticos. A mão-de-obra especializada dos professores, por exemplo, deve estar sempre lendo, estudando e se atualizando. As novas teorias da educação devem ser colocadas em discussão para que sejam compreendidas e utilizadas pelos profissionais da educação. Os aperfeiçoamentos da ciência têm que se tornar instrumentos de trabalho. Professor tem que saber usar o computador da forma mais efetiva possível...

Cada disciplina específica tem que ter a sua disposição um bom e atualizado acervo de obras para a consulta e preparação de aulas, avaliações e projetos pelos educadores. Cursos voltados para as ciências naturais, as humanidades, as línguas e a matemática são premências nos planos das secretarias de educação. A participação dos professores deve ser estimulada e cobrada para que essas melhorias possam realmente aparecer em seu trabalho na sala de aula.

Com o apoio de novos conhecimentos a relação entre os professores e os alunos irá, com certeza, melhorar muito. A sala de aula tornar-se-á um lugar muito mais agradável e produtivo graças ao estímulo das novas técnicas e saberes dos profissionais da educação.

Jogos, atividades culturais e práticas esportivas durante os intervalos e nos finais de semana ajudam a tornar a imagem da escola muito mais simpática aos olhos de toda a comunidade e repercutem positivamente até mesmo na produção dos estudantes nas aulas. Ao invés de deixar as portas das escolas fechadas, a abertura de seus espaços para cursos de informática, crochê, artesanato, música ou dança é uma alternativa implementada a partir do estado de São Paulo que está sendo copiada nacionalmente e estudada por outros países.

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Projetos para a inclusão digital devem ser parte constante dos planos
para a educação no Brasil. Computadores de boa configuração, em
adequado estado de conservação e plugados a internet são essenciais
como parte de projetos perenes associados a aprendizagem das disciplinas.

Os recreios monitorados e assistidos por professores de educação física, matemática, ciências e outras disciplinas também podem ser proveitosos. Ao invés de um bate-papo morno e desprovido de boas alternativas culturais e esportivas, que tal partidas de xadrez, damas, tênis de mesa, dominó ou salas de arte e de vídeo com curtas-metragem? Uma biblioteca com jornais e revistas pode agradar aos estudantes que queiram um pouco mais de informação, silêncio e paz. Quadras com jogos de torneios internos entre as equipes das escolinhas de esporte ou sessões de ginástica são também boas opções para orientar melhor a energia das crianças e adolescentes e, quem sabe, descobrir novos talentos na área...

Gasta-se mais para implementar tais idéias? Não. Os custos são menores do que quando iniciamos novos projetos a cada quatro anos e jogamos todo o trabalho anterior na lata do lixo por ter sido desenvolvido pela gestão anterior, da oposição. Manter, preservar e investir de forma ponderada e constante na educação custa menos do que tentar reinventar a roda a cada quatro anos. Ao invés de tentar salvar o doente com paliativos, cuidar da saúde da escola com medidas preventivas, de forma homeopática, pode ser uma resposta muito mais simples e, certamente, eficiente. Cobre de seus candidatos esse compromisso...

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