Planeta Educação

Diário de Classe

João Luís de Almeida Machado Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

A necessidade da experimentação
Tornando significativas as aulas técnicas

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A utilização dos acervos das bibliotecas para pesquisas tem que ser orientado pelos professores para que os levantamentos sejam realizados de forma mais acurada e objetiva. Não podemos continuar imaginando que esses conhecimentos já existem entre nossos alunos, eles necessitam de orientação e também de práticas regulares para esse tipo de trabalho.

Trabalhar com disciplinas que tem uma caracterização mais técnica, como Metodologia de Pesquisa, exige dos professores responsáveis muita criatividade para tornar as aulas interessantes aos olhos dos estudantes. Na prática isso significa que o educador tem que apresentar os conhecimentos teóricos e, de preferência, tentar implementar ações em que esses novos saberes sejam experimentados.

Isso não quer dizer que os professores, a cada novo tema discutido em sala, tenham que reinventar a roda. Criatividade não quer dizer necessariamente genialidade. Para mobilizar os alunos e conseguir tornar as aulas prazerosas e instigantes cabe aos educadores a responsabilidade de conhecer muito bem a temática estudada e ser capaz de promover atividades que sejam significativas quanto à utilidade desses conhecimentos.

O ideal seria que isso também fosse aplicável às disciplinas científicas como a biologia, a química ou a física. O maior empecilho a realização desse tipo de trabalho, de base empírica, é a deficiente estrutura das escolas brasileiras, especialmente da rede pública, que carece de laboratórios e de equipamentos. Caso isso fosse possível, sem qualquer sombra de dúvidas o aprendizado de ciências seria muito mais fácil e agradável para os estudantes.

No caso das ciências naturais também é possível e mais do que isso, necessário, que se façam pesquisas de campo com os estudantes desde a mais tenra idade. De preferência começando já nas séries iniciais do Ensino Fundamental, logicamente com conteúdos e projetos adaptados ao nível de conhecimento e maturidade desses pequenos estudantes. Quanto mais velhos, obviamente a complexidade tende a aumentar e as exigências finais quanto a relatórios, depoimentos, tabelas, estatísticas e demais resultados captados.

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Pesquisas de campo são de fundamental importância para o trabalho em ciências e matemática. Cabe aos educadores conseguir concatenar os esforços realizados em sala de aula, no trabalho teórico, com projetos que possibilitem aos estudantes perceber a aplicabilidade desses novos conhecimentos adquiridos.

Essas atividades podem ser feitas, por exemplo, com a captação de água dos rios da região para análise química, coleta de espécimes vegetais típicas de uma determinada região para a elaboração de catálogos ou ainda com a reprodução de condições físicas em que seja possível verificar condutividade, velocidade ou mesmo atrito.

Ainda quanto à questão do experimento, também é relevante lembrar que esse trabalho de conexão entre teoria e prática pode ser desenvolvido por professores de matemática. Para tanto, o ideal é fazer com que o cotidiano se torne matéria de exame e avaliação dos novos conhecimentos adquiridos. Por exemplo, é possível fazer levantamentos estatísticos a partir das vendas de estabelecimentos comerciais (o produto A vende menos ou mais que os produtos B e C, conforme pesquisa feita in loco) ou ainda perceber a utilidade da geometria e dos cálculos levando-se em conta obras em construção.

Esses trabalhos em laboratório ou no campo gerariam dados que seriam levados para a sala de aula e transformados em painéis que motivariam discussões e debates afim de auferir as relações entre os dados obtidos e a teoria utilizada como referência para os estudos.

Em minhas aulas de metodologia de pesquisa tenho tentado realizar atividades que demonstrem para os estudantes o trabalho do pesquisador na prática. É claro que o foco é muito diferente daquele que é realizado pelos especialistas em ciências naturais ou matemática, afinal de contas minha formação em história e educação denunciam a tendência a um trabalho voltado para as ciências humanas e sociais.

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No trabalho com os livros é necessária uma prospecção através da qual o estudante possa averiguar quais obras realmente lhe interessam e podem ser utilizadas em seu trabalho de pesquisa. Uma vez percebida a importância da obra é fundamental que o título em questão passe pelo processo de fichamento.

Não cabe aqui, nesse espaço, uma discussão acerca da validade ou do interesse que despertam as duas áreas de pesquisa científica (ciências naturais e matemática de um lado e ciências sociais e humanas do outro). Nem seria possível, pelo tamanho proposto para os artigos aqui apresentados, apreciar as metodologias e filosofias que fundamentam o trabalho nas diferentes circunscrições do trabalho de pesquisa.

O que queremos firmar no trabalho que realizamos em Metodologia de Pesquisa são conhecimentos e práticas relativos à pesquisa bibliográfica (que também são muito úteis para as ciências naturais e para a matemática), fichamentos, entrevistas, trabalho com documentos (como cartas, fotos, registros oficiais,...), produção de relatórios, descrições,...

Como parte do trabalho já realizado tivemos a oportunidade de explicar de que forma os estudantes poderiam identificar livros que fossem úteis a suas pesquisas. Demos como exemplo temas relativos à área de estudos em que esses alunos estão se graduando, que é a gastronomia, por isso indicamos como temas de pesquisa pratos típicos da alimentação brasileira (como feijoada, arroz tropeiro, doce de abóbora, acarajé,...).

Explicamos que numa pesquisa bibliográfica os alunos podem encontrar as informações relativas ao acervo de uma biblioteca em fichários ou, mais modernamente, a partir de computadores. Como a maior parte das bibliotecas públicas e universitárias brasileiras ainda não dispõe de serviços informatizados, demos mais detalhes sobre a busca a ser realizada em fichários (mas também nos preocupamos em informar os estudantes sobre os levantamentos eletrônicos).

Dissemos a eles que deveriam iniciar as buscas tendo em vista, inicialmente, o tema proposto para a pesquisa, no caso um dos pratos típicos da gastronomia nacional. Portanto se o aluno estiver fazendo um levantamento sobre o tradicional vatapá baiano, ele deve procurar livros que tenham a palavra vatapá no título. Outra possibilidade é a pesquisa por analogia, ou seja, procurando temas afins. Nesse caso o estudante deveria tentar achar obras que falassem sobre cozinha brasileira, culinária baiana, Bahia e suas tradições, as influências étnicas na cultura brasileira,...

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Os laboratórios das escolas e universidades precisam estar sempre atualizados quanto a equipamentos e produtos necessários para a implementação prática dos conhecimentos auferidos em aulas.

Tendo encontrado livros que falassem sobre o assunto, os alunos deveriam ler as “orelhas”, dar uma passada de olhos no prefácio e na introdução e verificar o conteúdo do volume a partir do índice. Caso essas leituras de prospecção tenham permitido ao estudante perceber que o livro pode ser valioso para o seu trabalho inicia-se então o processo de registro desse material bibliográfico num arquivo particular do próprio pesquisador.

Uma outra orientação valiosa para os estudantes é a de que eles devem dar uma boa olhada nas referências bibliográficas das obras obtidas para encontrar novos títulos. Os autores dos livros obtidos já realizaram pesquisas para compor seus volumes, é importante utilizar esse recurso a favor de seu levantamento bibliográfico.

Tendo conseguido os livros, passamos a uma nova etapa, a do registro, conforme já havia mencionado. Nesse caso a recomendação básica é a anotação dos dados em fichas. O trabalho de fichamento é de fundamental importância e garante ao pesquisador a criação de um arquivo que facilite sua consulta e agilize o andamento de suas anotações. Não é agradável apesar de ser simples. Demanda a observação de certas regras, como organizar as fichas por tema, autor ou por título das obras.

Requer que os pesquisadores façam a anotação dos dados da obra seguindo o rigor científico, ou seja, anotando primeiramente o sobrenome do autor em letras maiúsculas, seguido do nome, do título da obra em destaque, da edição, da cidade em que essa obra foi editada, do nome da editora e também do ano da edição. Veja os exemplos abaixo:

THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-ação. 12ª ed. São Paulo: Cortez, 2003.

DEPRESBITERIS, Léa. Avaliação educacional em três atos. 2ª ed. São Paulo: Ed. SENAC-SP, 2001.

O que fizemos em nossas aulas foi dar todas as recomendações e fazer uso rapidamente dessas práticas. Depois de introduzir a teoria, passamos para a biblioteca, onde fizemos os levantamentos. Também praticamos a técnica dos fichamentos, pedindo aos estudantes que realizassem essa prática por tema, autor ou título das obras.

Através da concatenação imediata dos conhecimentos trabalhados a partir da teoria e de sua verificação prática esperamos reforçar os conceitos e tornar as ações parte do cotidiano dos estudantes para que realizem os trabalhos acadêmicos que são requisitados. Temos obtido bons resultados e, acredito que o mesmo poderia ser feito em outras áreas do conhecimento com igual sucesso.

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