Planeta Educação

Cinema na Educação

João Luís de Almeida Machado Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

Muito Além do Jardim
Uma fábula moderna: As parábolas do jardineiro

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Um dos últimos filmes de Peter Sellers, considerado por vários especialistas como um dos maiores comediantes de todos os tempos é um filme que nos faz rir, mas que fundamentalmente nos emociona e nos leva a pensar. Baseado na obra literária “O Videota”, de Jerzy Kozinski, o filme nos mostra a vida de um jardineiro que durante praticamente toda a sua existência viveu num único lugar, a casa de seu patrão.

Sua experiência de vida restringia-se ao jardim dessa residência, ao contato com as poucas pessoas que por ali transitavam (como seus patrões e os demais funcionários) e as informações que conseguia pela televisão.

É justamente nesse ponto (seu universo restrito) que a existência de Chance Gardener (Peter Sellers) se torna digna de uma reflexão profunda por parte de professores e estudantes. Numa época como a nossa marcada pela necessidade de ampliarmos nossos horizontes e de termos informações a respeito de tudo e de todos, existiria ainda espaço para as pessoas que como Chance vivem dentro de um mundo pequeno, de perspectivas reduzidas?

Ou será que essas pessoas possuem uma sabedoria desprovida de orgulho ou empafia e poderiam nos indicar caminhos alternativos, onde as prioridades fossem menos ambiciosas, mais realistas?

O contato freqüente com as plantas faz com que o protagonista de “Muito Além do Jardim” entenda que o crescimento se faz a partir de um processo lento, regado por compreensão, paciência e muito, muito carinho e atenção. Ao expor seu entendimento das coisas que o cercam, Chance Gardener expressa suas idéias com base em seu universo aparentemente restrito, entretanto, sem que as pessoas saibam de sua origem, passa a ser interpretado como um sábio, que se expressa a partir de parábolas ou metáforas.

Protegido pelos limites da casa onde vivia, Chance preserva uma candura e uma inocência dignas das crianças. Não tem a malícia das ruas a macular sua auto-imagem e a consideração e estima que apresenta pelas outras pessoas. Nesse momento, podem surgir novas dúvidas entre os espectadores, especialmente pensando-se na possibilidade de sobrevivência num mundo tão hostil, de tanta agressividade e de muita maldade.

Se pudéssemos optar entre as alternativas que nos são oferecidas pelo mundo e por aqueles caminhos diferenciados do personagem de Peter Sellers, o que escolheríamos? Iríamos pensar de forma prática e adotar uma postura mais distante, tensa e pretensamente esperta em relação às pessoas e ao mundo em que vivemos ou escolheríamos a paz de espírito, a calma e a ingenuidade de Chance Gardener? E lembrem-se que não há chance de escolher uma terceira opção, híbrida...

O Filme

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O patrão de Chance (Peter Sellers) acabou de morrer. Para onde ir? O que fazer? Sem nunca ter saído da casa onde sempre viveu e trabalhou o jardineiro não sabe ao certo que rumo deve dar a sua vida. Para começo de conversa, ele nem ao menos sabia que teria que sair da casa, requisitada pelos advogados, por motivos de disputa judicial. Ao ser informado pelos outros funcionários que teria que ir embora, Chance não sabe a quem recorrer ou que caminhos seguir, afinal de contas toda a sua vida tinha sido ali, em contato com as plantas daquele simpático e bem cuidado jardim.

O destino é, muitas vezes, caprichoso, e fez com que em virtude de um pequeno acidente pelas ruas da cidade grande, Chance tivesse a oportunidade de conhecer Eve Rand (Shirley MacLaine), esposa de um grande e influente empresário, Benjamin Rand (Melvyn Douglas).

Levado para a casa do magnata, Chance conquista seus anfitriões com sua simplicidade e simpatia. Sua conversa tranqüila, com pensamentos expostos como parábolas, fazendo analogias entre o que acontecia a seu redor com os conhecimentos que possuía como jardineiro encantam todos ao seu redor e criam para os demais a aura de sábio para o humilde Chance.

Chance é então apresentado ao presidente dos Estados Unidos, que ciente da capacidade do hóspede de seu rico amigo Benjamin Rand, passa a buscar conselhos e orientações para a política nacional...

Uma fábula moderna, essa talvez seja a melhor caracterização para esse charmoso e interessante filme do diretor Hal Ashby (indicado a vários prêmios). Confiram!

Aos Professores

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1- Nossos alunos andam descrentes. Não acreditam com firmeza em virtudes. São bombardeados a todo o momento pela mídia (internet, televisão, rádio, jornais, revistas...) que parece disposta a patrocinar exemplos de vaidade, falta de caráter, esperteza ou virulência. Os exemplos vêm não apenas através dos meios de comunicação, estão na política, nas ruas, na busca de lucro desmedido ou mesmo nas escolas. O que é virtude? Há exemplos de virtude na história? O que podemos ganhar ao adotarmos uma postura de maior decência, responsabilidade e respeito pelos outros? Por que devemos nos unir a causas nobres e exercitar nossa solidariedade? Discutam com seus alunos, levem a eles as palavras que nos permitem exercer aquilo que há de mais nobre em pertencer à humanidade, advoguem em favor da solidariedade e da decência!

2- Um dos mais interessantes exercícios a se criar a partir do filme “Muito Além do Jardim” é a utilização e o estudo das parábolas. Historicamente várias personalidades se utilizaram (e continuam fazendo isso!) desse valioso recurso. O primeiro passo seria verificar historicamente exemplos do uso de parábolas (que tal começar com Jesus Cristo?). Depois poderia ser feito um exame da teoria que explica o que são e como são criadas. Um outro caminho interessante seria verificar o uso de parábolas na publicidade ou em outros setores de produção cultural. Para completar, crie um desafio aos alunos para que eles se tornem produtores de parábolas...

3- Alguns editoriais recentes resgataram a idéia original do filme de Hal Ashby e do livro de Jerzy Kozinski para ilustrar dois exemplos recentes de sucesso político, George W. Bush e Luiz Inácio Lula da Silva. Que tal pensar um pouco a respeito dessas comparações? Elas procedem? Em que sentido foram feitos esses paralelos?

4- Dois outros personagens importantes, da literatura brasileira e da mundial, se destacaram justamente pelo fato de se mostrarem ingênuos como Chance Gardener, são o “Cândido”, de Voltaire e a “Velhinha de Taubaté”, de Luís Fernando Veríssimo. Que tal descobrir mais a respeito desses dois personagens notáveis da literatura e criar um quadro comparativo com o protagonista do filme “Muito Além do Jardim”?

Ficha Técnica

Muito Além do Jardim
(Being There)

País/Ano de produção: EUA, 1979
Duração/Gênero: 130 min., Drama
Direção de Hal Ashby
Roteiro de Jerzy Kosinski
Elenco: Peter Sellers, Shirley MacLaine, Melvyn Douglas, Jack Warden,
Richard Dysart, Richard Basehart, Ruth Attaway, David Clennon, Fran Brill.

Links
- http://www.adorocinema.com.br/filmes/muito-alem-do-jardim/muito-alem-do-jardim.asp
-http://epipoca.uol.com.br/filmes_detalhes.php?idf=3099
- http://www.imdb.com/title/tt0078841/combined (em inglês)

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Avaliação deste Artigo: 4 estrelas