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Filosofando
Nilson Santos Professor de Filosofia e História da Educação/UNIR E-mail: nilson@unir.br

As Crianças Pensam? - 27/08/2007
Coluna Educação para o pensar

Freqüentemente nos dirigimos às crianças e exigimos que eles tenham atitudes de adulto. Não são raros os momentos que chamamos sua atenção dizendo coisas do tipo: “Pensa direito menino!”, ou “Presta atenção no que faz, parece que você está no mundo da lua!”.

Quando não fazemos isto, acabamos aceitando todo tipo comportamento que possam ter, com a desculpa que ainda são crianças, e que, portanto não é o momento de exigirmos deles atitudes maduras.

Uma terceira possibilidade tão danosa quanto as duas anteriores acontece quando dizemos: “Não faça isto”, ou ainda “Não fale isto, que é feio”, sem darmos as justificativas pertinentes.

Em todas as alternativas acima, privamos as crianças do que é mais caro aos adultos: O PENSAR.

O problema não reside em dizermos às crianças o que elas devem ou não fazer, mas em como fazemos para que elas entendam o que pode ser feito ou não, isto significa que temos que dar a elas a chance de construir suas hipóteses sobre as coisas. Assim, antes de dizermos: “Não faça isto”, devemos fazer com que ela justifique porque está fazendo aquilo, e o que significa para ela agir de determinada maneira. Nossa preocupação deve estar voltada, portanto, não exclusivamente para algo que a criança faça ou fale, mas antes para as motivações que ela julga imperiosas e para as justificativas que consegue elaborar.

Esta mudança de perspectiva obriga a nós, adultos, deixarmos de nos preocupar tanto com o que as crianças fazem, nos fixando mais nos procedimentos e nas construções mentais que elas elaboram para chegar ao que externalizam. Ou seja, é mais importante o que provoca certas atitudes e não a própria atitude em si.

Isto obriga os educadores (porque é cada vez mais raro encontrar pais preocupados em fomentar nos filhos um sólido processo reflexivo) a garantirem duas coisas fundamentais na educação infantil: primeiro, que as crianças possam refletir sobre sua ação, buscando dar significado e sentido a ela, preenchendo de conteúdos as atitudes que tem, que muitas vezes parecem não fazer muito sentido para ela, porque não conseguem pensar por si mesmas sobre tudo. Trocando em miúdos: decidir menos por elas, e acreditar que elas podem encarar certos desafios típicos de sua idade, e aprender com eles, sem que alguém precise decidir por elas.

Segundo, que as atitudes delas deixem de ter caráter meramente repetitivo, deixando de ser meras cópias do que fazem os dos adultos, passando a obedecer a um caráter auto-reflexivo, amparado nos conceitos que consiga formular. Ou melhor: nada mais aterrorizante que pais que ficam obrigando os filhos pequenos jogarem futebol e serem “machos”, as filhinhas ficarem rebolando na frente das visitas (humilhando a criança, constrangendo os amigos que se vêem obrigados a dizer: Que lindo! E expondo a pobreza de espírito dos pais).

A criança quando é freqüentemente solicitada a justificar seu comportamento, acaba percebendo que não podemos agir e dizer coisas sem sentido.

Isto não significa que a criança deve ser repreendida e acossada por conta de todo tipo de enganos que cometa, mas sim que devemos garantir que elas consigam aprendam com seus erros dentro de um processo sadio, fraterno, equilibrado e paciente; promovendo a auto-estima, o desejo de enfrentar e superar, ao invés de um espírito acuado e acovardado e culpado. A aprendizagem não significa o castigo (como sugerem as religiões cristãs), nem a permissividade, mas sim a busca do entendimento das armadilhas e enganos, das implicações, das alternativas e das conseqüências daquilo que elas fazem. 

O nosso sistema educacional, e grande parte dos nossos professores, por acreditar que o pensar nas crianças não é consistente, e, portanto o que elas dizem não deve ser levado à sério, preferem ensinar tudo, como se elas não tivessem ao longo de suas vidas elaborado suas hipóteses sobre as coisas que já vivenciaram.

Os professores preferem ensinar, por exemplo, “A lei da gravidade”, aos seus alunos, e não resgatar deles suas explicações e sensações. Ensinamos, portanto conceitos acabados, histórias mortas, fórmulas áridas, coisas desinteressantes às crianças e com certeza aos adultos também.

Mas se a escola se parece mais com matadouro do que com a vitrine para o mundo, ela não faz isto porque maldosamente nos deseja com a consciência lesada, faz sim porque nós somos e preferimos ser assim. Percebam não afirmei: porque somos assim, pois isto tem caráter fatalista, disse por que PREFERIMOS SER ASSIM, fazemos a opção por não pensar, e achamos que as pessoas que nos cercam e as crianças incomodam menos quando não perguntam.

Os pais preferem ver seus filhos crescerem na frente da televisão, sem qualquer critério e sabor pela vida, os professores preferem ocupar-se dos conteúdos do ensino. O problema não está na TV (coisa do demônio, segundo os estúpidos, tal qual foi a luneta, a vacina) nem nos conteúdos, mas na maneira como pais e educadores se comportamos diante dela. Ela é fonte importante de informações, mas informação sem reflexão não faz sentido, só esclarece e doutrina.

Nossas crianças não merecem continuar a serem adestradas.

Educar implica em aprender e fazer, em fazer e pensar, em compreender e justificar, em dizer e construir, em buscar e discordar, em criar e destruir. Mas como ninguém consegue ensinar o que não aprendeu, o caminho ainda parece longo.

Nilson Santos
Professor de Filosofia e História da Educação/UNIR
E-mail: nilson@unir.br

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21 COMENTÁRIOS

1 arlete i gatto valandro - espumoso
Penso que é por ai o caminho. A doutrina é como as ideologias, levam apenas a repetir por repetir sem consciência. Hoje diante de todas as realidades é preciso consciência do que se faz, como se faz, para quem se faz, consequências .... pois é dessa consciência que depende a existência planetária. Nossa grade família humana está perdendo pelas espécies vegetais e animais instintivamente sem consciência da importância do SER GENTE e da finitude da existência terrena.
04/07/2011 23:31:49


2 Agostinho B. Santos - Camaçaariba
excelente palavra mas, contesto sua predisposição de emitir críticas às religiões cristãs. O livro de maior autoridade em educação de filhos é a Bíblia. Ela diz que não se deve afastar a vara e a disciplina da criança. agradeço ao meu pai que sempre me corrigiu com a vara e , hoje sou um homem de bem. um educador.
09/02/2011 12:42:59


3 josé luis - Blumenau SC
achei muito pertinente tal questionamento,a cabeça da criança não é tão assim um mundo a parte do nosso, pareceme que para que ela edifiquese no conhecimento, nós só precisamos nos abaixarmos um pouco...abço
03/05/2010 22:30:50


4 JUSSARA ALMEIDA - RETIROLÂNDIABA
GOSTO MUITO DE LER TEXTOS DESTE TIPO, POIS SOU APAOIXONADA POR PEDAGOGIA, APESAR DE TER FEITO OUTRO CURSO.SEMPRE TRABALHEI C CRIANÇAS E A CADA DIA TENTO ENTENDER SUAS ANGUSTIAS E CURIOSIDADES ATRAVES DE SUAS ATITUDES, PRINCIPALMENTE DEPOIS QUE TIVE FILHO. ACREDITO MUITO NO POTENCIAL DAS CRIANÇAS, INDEPENDENTE DA IDADE, P MIM TODAS TENTAM NOS MOSTRAR ALGO IMPORTANTE, NÓS Q SOMOS QUASE SEMPRE CEGOS.
07/01/2010 18:03:23


5 simone - Macatuba
Ótimo! É bem assim mesmo que acontece porque é natural agente falar isso para eles, por isso é importante esse tipo de leitura que nos leva a refletir sobre nossas atitudes. As crianças precisam expressarse e liberar de uma forma agradável seus sentimentos.
18/06/2009 07:54:17


6 Maria Cristina Galli Nacli - Macatuba Sp
Boa tarde Sr Nilson. Em primeiro lugar gostaria de dizer que gosto muito de Filosofia e que desde o tempo de faculdade, que me interesso muito por essas informações sobre a vida, pensamentos etc. Achei seu artigo muito interessante e afirmo que as crianças pensam e muito, são criativas, pesquisadoras e nos fornecem respostas muito inteligentes. A criançade hoje é muito diferente da criança que fomos, ou seja, muito melhor.
17/06/2009 15:10:48


7 suely b. prudenciatti - lençóis paulista
ADOREI ESTE TEXTO,GOSTARIA DE DIZER QUE HA MUITO TEMPO JA FICO MAIS OBSERVANDO E OUVINDO DO QUE FALANDO. QUANDO TUDO COMEÇOU ACHEI MEIO ESTRANHO MAS ELES PENSAM MUITO E MUITO E QUANDO FALAM PARECE QUE TODAS AS PORTAS DO MUNDO ESTÃO SE ABRINDO PORQUE PEGA UM PEGA O GANCHO DO OUTRO E AI TUDO DE BOM POIS SEI QUE ESTAMOS FORMANDO CIDADÃOS AUTONOMOS E CONCIENTES.
25/05/2009 19:03:30


8 luiza helena trecenti - lençóis paulista
Gostei muito do que o professor escreveu,devemos parar e refletir, sobre nossa conduta dentro da sala de aula. Devemos ouvir mais do que falar e cobrar as vezes esse momento pode nos trazer grandes conquistas!
20/05/2009 13:57:31


9 Giovana -
Gostei muito do que o professor escreveu, sobre ensinar a pensar, é importante que se aprenda a ensinar certo e a pensar corretamente para se obter bons resultados. É pensando que se consegue realizar grandes projetos.
18/05/2009 09:36:39


10 camiala - lençóis paulista
adorei!!!!! penso assim também sempre pergunto aos meus filhos e alunos porque fizeram algo ou oque pensaram quando fizeram e acabo sempre conseguindo entender as atitudes e fazêlos refletir sobre a atitude como consequencia , o problema é nós conseguirmos parar nossas vidas corridas e agitadas para ouvirmos nossas crianças. É dificil ma com um esforcinho dixando as novelas e jornais de lado por alguns minuos!
06/05/2009 10:38:06


11 Ilvo Augustin - Itati RS
Gostei muito! Fizeste muitos pais e professores pensar sobre o assunto. Só não concordo com a colocação castigo referindose a religiões cristãs. Isto revela pouco conhecimento teu sobre o assunto para fazer tal afirmação. Pois a essência da igreja cristã é o amor, o perdão, ou seja, revelam os frutos do Espirito de Deus conforme Gl 5.2225. Estes são os frutos que devem ser levados em conta para uma verdadeira e, por que não, completa educação.E o que passa disso, são seitas cristãs, que não revelam e não vivem o amor.
11/03/2009 21:52:11


12 Margarete - Porto Alegre
Gostei muito do que o professor explanou, sobre ensinar a pensar, é importante que se aprenda a ensinar certo e a pensar corretamente para se obter bons resultados. É pensando que se consegue realizar grandes projetos.
28/10/2008 19:50:51


13 Maria Paula Prado de Moraes Pirajá - Itanhaém e Cubatão SP
Muito apropriado o questionamento, muito rica a dica de perguntar o porquê das atitudes. Filosofia já e sempre. Voltarei e lerei mais. Valeu!
30/05/2008 13:50:42


14 lucinda - Alagoinhas- Bahia
O fato de fazer o meu filho justificar o porque das atitudes dele, só mim faz ver que estou correta quato as minhas atitudes em relação ao comportamento dele.
21/05/2008 11:13:01


15 celia maria de moraes rodrigues - sao paulo
a materia e maravilhosa e serve como lembrete para muitos educadores ,que muitas vezes se esquecem que criança pensa e que tambem tem muito a ensinar.
24/02/2008 11:09:51


16 Caio Porto - Taquaritinga - SP
A questão proposta no artigo, deve tomar cuidado com o poensar pelo puro pensar, isto é, corremos um risco de ensinar a criança a pensar e nunca tomar decisões. Sei que o autor do artigo sabe disso, mas é um risco que corremos.
11/02/2008 21:57:59


17 monica oliveira - mostardas
Estou cursando o primeiro ano de pedagogia e seu artigo entrou na minha vida sem eu perceber foi de uma ajuda imensa.
12/12/2007 18:21:57


18 VANDETE MARIANO GOMES - SERRA-ES
MUITO LEGAL, ACHO QUE POSSO APRENDER MUITA COISA AQUI, E CONSEQÜENTEMENTE TEREI MUITO QUE ENSINAR.
26/09/2007 12:35:15


19 Cristina Rosa - Caçapava - Caçapava
Concordo com o professor. Esse foi um assunto que me levou para a Educação, e sempre questiono essas colocações que brilhantemente foram traduzindo minhas angústias neste texto. Creio que temos muito para evoluir, e nossas crianças precisam de transformações também de nossa parte.
03/09/2007 22:56:34


20 Maria Cristina Clemente e Silva - Santos
Nilson, estou começando a elaborar meu projeto de monografia da minha Pós de Psicopedagogia e seu artigo vai colaborar para o meu trabalho. Eu estou pensando em escrever porque o aluno não consegue interpretar o conteúdo que é passado em sala de aula? E o seu artigo me faz pensar ..... abraçosss
30/08/2007 09:12:54


21 Susana Pereira - São Paulo
Algo que acredito, que muitas vezes esqueço devido à correria do dia à dia, devido à comodidade e simplificação de minhas atitudes na educação das minhas filhas. Obrigada por me lembrar, fazer refletir e me mobilizar à mudança. Minhas filhas, maravilhosas, também agradecem.
29/08/2007 08:14:59


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