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Planeta Literatura
João Luís de Almeida Machado Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

Dicionário Filosófico -
Voltaire

Imagem-de-Voltaire
Voltaire foi um dos mais destacados pensadores do Iluminismo.
Escreveu peças teatrais, obras científicas, tratados filosóficos e romances.
Crítico feroz das vantagens e benefícios vividos pela nobreza e pelo Clero,
fazia críticas inteligentes, marcadas pela ironia e pelo sarcasmo.

Para compreender o espírito de um tempo, de uma sociedade, temos que recorrer a sua essência. Se o período ao qual nos referimos ficou para trás, cabe a nós o resgate de sua memória a partir de suas fotografias, filmes, cartas, documentos oficiais, roupas, utensílios e, principalmente, sua literatura e sua filosofia, transcritas em páginas e páginas de pensamentos esclarecedores da natureza de homens e seus trabalhos, amores, alimentos, guerras, religiões,...

Um dos períodos mais prodigiosos da aventura humana no planeta foi a Revolução Francesa (1789-1799). Mais que enterrar os resquícios do Antigo Regime, esse movimento consagrou o mundo burguês e estipulou bases para as sociedades que se estabeleceriam nos séculos XIX, XX e XXI.

As ações de Danton, Robespierre, Saint Just e Marat não teriam acontecido sem a produção valiosa dos pensadores iluministas que viveram na Europa entre os séculos XVII e XVIII. Sem Rousseau, Montesquieu, Diderot e D´Alembert ou Voltaire, não existiriam os princípios, as fórmulas, os pensamentos e conceitos que consolidaram a "Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade" obtidas a custa de muita luta no final do século XVIII.

Se a "Enciclopédia" de Denis Diderot virou história ao se tornar o primeiro livro em que se tentava sistematizar o pensamento humano, de forma racionalizada, como um material que deveria ser acessível ao povo e que fora escrito por um grande número de especialistas, Montesquieu não ficava para trás e produzia sua obra prima "O Espírito das Leis", em que discorria sobre formas de organização política, sendo muito crítico quanto a algumas delas e propondo, em contrapartida, alternativas que se tornariam a base futura, como o sistema de três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário).

Se Rousseau defendia em seu "Contrato Social" o tácito acordo que deveria ser firmado entre a sociedade e seus governantes e propunha a educação pública em "O Emílio", Voltaire não deixava por menos e atacava o Clero e os privilégios da Nobreza em suas Cartas; além disso, tentava esclarecer seus contemporâneos com sua obra imortal o "Dicionário Filosófico".

Uma das grandes contribuições dos iluministas ao pensamento contemporâneo, o "Dicionário Filosófico" de Voltaire está disponível para leitura na internet (veja os links indicados ao final do artigo). Trata-se de documento de grande valor para quem quer entender o momento histórico em que viviam esses pensadores, o modo como organizavam seus pensamentos e a própria Revolução das Luzes.

Apresento abaixo dois "verbetes" retirados do "Dicionário Filosófico" de Voltaire. Espero com isso, abrir o "apetite" dos leitores quanto ao restante do conteúdo da obra desse renomado escritor e pensador francês. Bom proveito!

BELO, BELEZA

Capa-do-Dicionario-Filosofico

Perguntai a um sapo o que é a beleza, o supremo belo, o to kalon.

Responder-vos-á ser a sapa com os dois olhos exagerados e redondos encaixados na cabeça minúscula, a boca larga e chata, o ventre amarelo, o dorso pardo. Interrogai um negro da Guiné, o belo para ele é - uma pele negra e oleosa, olhos cravados, nariz esborrachado. Indagai ao diabo. Dir-vos-á que o belo é um par de cornos, quatro garras e cauda. Inquiri os filósofos. Responder-vos-ão com aranzéis. Falta-lhes algo de conforme ao arquétipo do belo em essência, o to kalon.

Assistia eu certa vez à representação de uma tragédia em companhia de
um filósofo.

- Como é belo! - dizia ele.

- Que viu de belo o senhor?

- O autor atingiu seu fim.

No dia seguinte ele tomou um purgante que lhe fez efeito.

- O purgante atingiu seu fim - disse-lhe eu. - Eis um belo purgante.

Ele compreendeu não se poder dizer que um purgante seja belo, e que para chamar belo a alguma coisa é preciso que nos cause admiração e prazer.

Conveio em que a tragédia lhe inspirara estas duas emoções, e que nisso estava o to kalon, o belo.

Realizamos uma viagem à Inglaterra. Lá se representava a mesma peça, impecavelmente traduzida. Fez bocejarem todos os espectadores.

- Oh! - exclamou o filósofo - o to kalon não é o mesmo para os ingleses e os franceses.

Após muita reflexão concluiu ser o belo extremamente relativo, como o que é decente no Japão é indecente em Roma, o que é moda em Paris não o é em Pequim.

GUERRA

A miséria, a peste e a guerra são os três ingredientes mais famosos deste mundo vil. Podem-se colocar na classe da miséria todas as más alimentações a que a penúria nos força a recorrer para abreviar nossa vida na esperança de a suster.

Compreendem-se na peste todas as doenças contagiosas, que são em número de, dois ou três mil. Esses dois presentes nos vêm da Providência, A guerra, porém, que reúne todos esses dons, nos vem da imaginação de trezentas ou quatrocentas pessoas disseminadas pela superfície do globo sob o nome de príncipes ou ministros; é provavelmente por essa razão que em várias dedicatórias se chamam imagens vivas da Divindade.

O mais determinado adulador convirá sem esforço em que a guerra acarreta sempre a peste e a miséria, por pouco que tenha visto os hospitais dos exércitos da Alemanha, ou que tenha passado em aldeias onde se fez algum grande movimento militar.

É sem dúvida uma bela arte a de desolar os campos, destruir as casas e
fazer morrer, anualmente, quarenta mil homens sobre cem mil.

Links

- http://virtualbooks.terra.com.br/freebook/colecaoridendo/dicionario_filosofico.htm
-http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/filosofico.html

Avaliação deste Artigo: 3 estrelas
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4 COMENTÁRIOS

1 ana carla carstens - são jorge d`oeste
realmente ao ler o relato dessa história me senti atraida por saber mais dela. É uma história muito entereçante e por isso indiquei a varios amigos abrigado
06/08/2008 17:21:17


2 Danilo Moraes Alves - Maringá/PR
Extremamente interessante, Grande Pensador!
15/05/2008 11:55:40


3 Déa Maria Martinewski - Pirassununga - SP
Estou cursando Pedagogia e estudando atualmente Filosofia e me interesso por esses tipos de artigo. Gostei bastante e pretendo consultar os links mencionados.
15/10/2007 20:03:50


4 luiz gustavo b. feitosa - sertania
adorei este artigos
07/05/2007 20:47:13


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