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Filosofando
Rogério Lobo Sáber Graduado em Letras (Português/Inglês) pela Universidade do Vale do Sapucaí (2009). Aperfeiçoou-se em História da Filosofia Antiga pela Faculdade Católica de Pouso Alegre (2010). Atualmente é professor de literatura do Colégio Tecnológico “Delfim Moreira” de Santa Rita do Sapucaí.

O Discurso Literário - 14/10/2010
Considerações

Peut-être me direz-vous: « Es tu sûr que cette légende soit la vraie ? » Qu’importe ce que peut être la réalité hors de moi, si elle m’aide à vivre, à sentir que je suis et ce que je suis. (Charles Baudelaire)

Esta nossa especulação é o que se pode chamar de tiro às escuras. Em primeiro lugar porque todo texto, por arrebatar cada leitor de forma distinta, não nos permite asseverar se conseguiremos, de fato, descer ao primeiro degrau do porão filosófico — que é o lugar que, ingenuamente, gostaríamos de alcançar.

Assusta-se o leitor, mas é justamente a ideia de porão que devemos aqui explorar; afinal, se os meandros por que transita todo o arsenal teórico-filosófico existente são vários e, se é verdade que as teorias da filosofia — por serem elas mesmas múltiplas — tecem diálogo favorável com outras áreas do conhecimento, de modo a comporem um lato mosaico, não intentamos alcançar outro sítio senão o porão mencionado: ambiente profundo, gruta da casa, ar denso.

Nossa busca, acreditamos, deve ser pelo profundo, por tudo aquilo que subjaz às aparências e que nos permite, de maneira real — ou pelo menos sensível — compreender a realidade que nos circunda. É claro que se nos dispuséssemos a explorar cada fresta que a realidade observável — tal qual dioneia vistosa e matreira — nos convida a fazê-lo, por certo encontrar-nos-íamos perdidos, já que a realidade — dual — não é composta apenas por uma porção apreensível, racional.

Temos de refletir, igualmente, se uma porção significativa de nossa existência não é aquela dita sensível. Sem dúvida, este colóquio, tal como se apresenta, nada mais é senão uma parrésia: afinal, o início de tais especulações ontológicas não remonta ao ano corrente de 2010 — tempos e tempos se passaram desde que o primeiro aventureiro, embrenhando-se na mata filosófica, dispôs-se a meditar sobre o assunto.

Mas, se revestirmos nossa postura justamente com a mesma ousadia de que lançaram mãos os filósofos helênicos, seremos levados a discorrer acerca da força do sensível. Afinal, em que medida é dada, à sensibilidade, a capacidade de compreender (e de fazer compreender) a realidade humana?

“Puxando-se a sardinha” para o campo de nossas inclinações, somos levados a pensar que a dúvida esboçada no parágrafo anterior pode ser elucidada, ao menos em parte — já que o esgotamento de um tópico em todas as suas faces é tarefa de loucos ou ignorantes —, pela literatura.

Ora, se o potencial desbravador da arte literária é incontestável, talvez se justifique, por exemplo, o arrebatamento em nós causado pelo conto Uma galinha, da escritora Clarice Lispector.

Clarice, grosso modo, pertence àquela constelação de pensadores que faz uso da escrita, da palavra-luz, do verbo-faísca, em prol de iluminação. Não nos cabe aqui transcrever, verbum ad verbum, o texto clariceano em questão — embora consideremos que a leitura desse espécime literário seja, na mínima das hipóteses, tarefa a ser cumprida.

O poder da palavra transcende o simples símbolo, sobreleva a superfície imediata das coisas e dos seres; em outras palavras, parece-nos que pensar em literatura é direcionar o pensamento justamente para um emaranhado sintático-semântico (que é o texto literário, bem lapidado) ao qual é dada a prerrogativa de desmistificar o mundo por meio da desmistificação de cada um — releia a epígrafe deste ensaio.

Daí Eagleton (2006) ter afirmado que pensar em literatura não é se perguntar o que o autor fez com o texto literário, mas também o que a obra fez com seu criador.

Longe de qualquer restrição, temos de considerar, inclusive, que também o discurso científico contribui com a compreensão da realidade; entretanto, não sendo este espaço adequado para trazermos à discussão qual das duas manifestações discursivas é mais importante do que outra, reservamo-nos o direito de permanecer em juste-milieu.

O discurso científico propriamente dito, de espírito racional, ao percorrer caminhos distintos para desvelar a realidade, mune-se de lentes próprias que, por sua vez, compõem o que Kuhn (1982) chamou de paradigma.

Abstendo-nos de pormenores, podemos resumir a teoria kuhniana que, sendo ampla e aplicável a diversos campos do conhecimento, julgamos ser de extrema importância.

Para Kuhn, paira um mito sobre a ciência que, em “condições normais”, possui diretrizes especulativas e teóricas universalmente validadas. Quando uma ciência constrói um arsenal de informações e de técnicas que, em princípio, parecem imutáveis, alcança o status da normalidade. Em suma, a ciência dita normal é aquela que possui parâmetros tais “[…] que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de [seus] praticantes” (KUHN, 1982, p. 12).

Não obstante, essa condição científica amena não permanece eternamente imóvel — ora, se afirmássemos o contrário cometeríamos um grande equívoco —, posto que não se deixa guiar pela inércia.

Por mais que, à superfície, determinada manifestação científica pareça estagnada — como se estivesse afundada em terreno alagadiço —, é no cerne de sua existência que reside o fervilhar de ideias e de novas possibilidades. Mas…

Conforme nos explica Kuhn, dificilmente uma sociedade científica — bem estabelecida, casada com aquele “partidão” ou vencedora da loteria — dispõe-se a alterar sua rota, a assumir que a agulha de sua bússola apresenta qualquer irregularidade. Isso significa que, ao sinal da primeira anomalia, há uma reação quase alérgica que visa a destruir a teoria intrusa, a substância irritante. Isso porque os paradigmas revestem-se, inevitavelmente, de certo preconceito, como nos dá a entender o seguinte fragmento da teoria de Kuhn:


De início, o sucesso de um paradigma — seja a análise aristotélica do movimento, os cálculos ptolomaicos das posições planetárias, o emprego da balança por Lavoisier ou a matematização do campo eletromagnético por Maxwell — é, em grande parte, uma promessa de sucesso que pode ser descoberta em exemplos selecionados e ainda incompletos. 

A ciência normal consiste na atualização dessa promessa, atualização que se obtém ampliando-se o conhecimento daqueles fatos que o paradigma apresenta como particularmente relevantes, aumentando-se a correlação entre esses fatos e as predições do paradigma e articulando-se ainda mais o próprio paradigma. 

Poucos dos que não trabalham realmente com uma ciência amadurecida dão-se conta de quanto trabalho de limpeza desse tipo resta por fazer depois do estabelecimento do paradigma ou de quão fascinante é a execução desse trabalho. Esses pontos precisam ser bem compreendidos. A maioria dos cientistas, durante toda a sua carreira, ocupa-se com operações de limpeza. Elas constituem o que chamo de ciência normal.

Examinado de perto, seja historicamente, seja no laboratório contemporâneo, esse empreendimento parece ser uma tentativa de forçar a natureza a encaixar-se dentro dos limites preestabelecidos e relativamente inflexíveis fornecidos pelo paradigma. 

A ciência normal não tem como objetivo trazer à tona novas espécies de fenômeno; na verdade, aqueles que não se ajustam aos limites do paradigma frequentemente nem são vistos. Os cientistas também não estão constantemente procurando inventar novas teorias; frequentemente mostram-se intolerantes com aquelas inventadas por outros. 

Em vez disso, a pesquisa científica normal está dirigida para a articulação daqueles fenômenos e teorias já fornecidos pelo paradigma (grifo nosso) (1982, p. 44).

Entretanto, o que se apresenta como sendo anomalia, não raramente, adensa-se e, adquirindo proporções irrevogáveis, conduz os caminhos da ciência a novos limiares; daí o teórico em questão defender que a existência e/ou aparecimento de anomalias é algo positivo, uma vez que a novidade científica se torna responsável pela “atualização” do próprio paradigma do qual se originou. A crise é essencial para que os instrumentos sejam revistos e novamente afiados.

Regressemos, portanto, à nossa discussão: sendo os discursos literário e científico propriamente ditos ferramentas indispensáveis para a compreensão de nossa realidade, podemos pensar na supremacia de um ou de outro?

Para tentarmos esclarecer tal questão, guiar-nos-emos por dois caminhos. O primeiro deles será representado e se baseará em um espécime literário — conto Uma galinha, de Clarice Lispector (1998). A segunda iniciativa de compreensão buscará respaldo na obra teórica do filósofo Gilles Lipovetsky, A felicidade paradoxal: um ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo, publicada no Brasil pela Companhia das Letras (2008). Cumpre ressaltar que esses dois textos foram recolhidos a esmo — seleção influenciada apenas pela memória.

Em Uma galinha, a escritora Clarice Lispector, a partir da figura da referida ave, tece escritos que, a nosso ver, devem ser compreendidos metaforicamente. A título de explicação, temos que o recurso metafórico, como nos expõe Paul Ricoeur (1992) é aquele responsável por criar nova carga semântica a partir de ideias existentes isoladamente.

Daí a galinha de Lispector compor, pelo que nos parece, uma figura que vai muito além da simples ave; em nosso ver, o animal em fuga retratado pela escritora é a própria mulher da época de Clarice. A galinha literária, apalpada com indiferença, é, tal qual a mulher, resignada: justamente aquela criatura que possui “o velho susto de sua espécie já mecanizado” — espécie a quem não é dado o privilégio de cantar. Em suma: a reflexão que depreendemos do texto transcende o texto. Comprovado o potencial iluminador da literatura.

Se nos transpusermos, então, conforme planejado, à discussão da obra de Lipovetsky, seremos capazes de compreender muito da essência de nossa contemporaneidade, posto que o teórico nos ensina que nossa sociedade, guiando-se pelo imediatismo, encontra, no consumismo exacerbado, o que nos parece sua razão de ser. As relações apresentam-se com “alto esvaziamento demográfico” e toda a espetacularidade de nosso contexto procura, no capitalismo, bases para fincar raízes. Ratificado o potencial iluminador do discurso científico propriamente dito.

Logo, divisamos um impasse praticamente insolúvel: quem é supremo? A literatura? A ciência racional? Quisera nos fosse dado o poder de laurear o vencedor. Todavia, tal impossibilidade, pelo que nos parece, é justamente devido ao fato de que não há. O discurso literário atenta-se ao mágico da vida: à névoa que se torna espessa, conduzindo-nos até espaços e dimensões obscuras e profundas. Ao porão mencionado no início deste ensaio.

O discurso científico racional, por sua vez, guia-nos em direção à luz, ao sol, ao clarear das ideias. Logo, ambas as manifestações do conhecimento se nos apresentam como complementares, faces de mesma moeda. O necessário, em nossa contemporaneidade, não é distinguir, marcar com sinal infame, o perdedor da batalha; precisamos, sim, nos empenharmos em buscar alternativas as mais holísticas possíveis para que nossa existência seja compreendida. Para que a ética seja resgatada (cf. SÁBER, 2010).

REFERÊNCIAS

EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. 6ª ed., São Paulo: Martins Fontes, 2006.

KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Editora Perspectiva, 1982.

LISPECTOR, Clarice. Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

RICOEUR, Paul. O processo metafórico como cognição, imaginação e sentimento. In: SACKS, Sheldon (Org.). Da metáfora. São Paulo: EDUC/Pontes, 1992, pp. 145-160.

SÁBER, Rogério Lobo. O pensamento e o resgate da ética contemporânea. Reuni (Revista do Curso de Publicidade e Propaganda), Universidade do Vale do Sapucaí, Pouso Alegre, n. 3, 2010. Disponível em: .

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